Por que comparar salário com nota fiscal engana
A proposta PJ quase sempre chega com um número maior, e é natural achar que ela ganha. Mas os dois valores não são comparáveis: o salário CLT vem acompanhado de parcelas que não aparecem no contracheque mensal e que, somadas, valem bem mais do que parecem.
Um contrato CLT de R$ 8.000 não entrega 12 pagamentos por ano. Entrega 13 salários, mais um terço de férias, mais 8% de FGTS depositados todo mês, mais os benefícios. Antes de qualquer conta de imposto, o valor anual já é cerca de 25% maior que doze vezes o salário.
PJ no ano = 12 notas − impostos − contador − INSS do pró-labore
Do outro lado, o PJ paga menos imposto sobre o mesmo valor bruto — e é aí que a conta pode virar. A pergunta certa não é "qual número é maior", e sim quanto o PJ precisa faturar para empatar. É isso que a calculadora acima responde.
Fator R: a regra que dobra o seu imposto
Prestadores de serviço no Simples Nacional podem cair em dois anexos diferentes, e a diferença é enorme. Na primeira faixa, o Anexo III começa em 6% e o Anexo V em 15,5%. O que decide é o Fator R:
- Fator R igual ou maior que 28% → Anexo III, alíquota inicial de 6%
- Fator R menor que 28% → Anexo V, alíquota inicial de 15,5%
Na prática o Fator R considera também os encargos sobre a folha, o que ajuda a atingir os 28% com um pró-labore um pouco menor. A calculadora usa apenas o pró-labore, o que torna a estimativa conservadora — na vida real seu contador costuma conseguir um resultado ligeiramente melhor.
Tabela do Simples Nacional para serviços
| Receita em 12 meses | Anexo III | Anexo V |
|---|---|---|
| Até R$ 180 mil | 6,0% | 15,5% |
| Até R$ 360 mil | 11,2% | 18,0% |
| Até R$ 720 mil | 13,5% | 19,5% |
| Até R$ 1,8 milhão | 16,0% | 20,5% |
As alíquotas da tabela são nominais. A partir da segunda faixa existe uma parcela a deduzir, o que faz a alíquota efetiva ficar sempre menor que a nominal. A calculadora já aplica esse desconto.
O que você perde ao virar PJ
A parte que nenhuma proposta menciona:
| Direito | CLT | PJ |
|---|---|---|
| 13º salário | Sim | Não |
| Férias remuneradas + 1/3 | Sim | Não |
| FGTS e multa de 40% | Sim | Não |
| Aviso prévio | Sim | Não |
| Seguro-desemprego | Sim | Não |
| Auxílio-doença | Sim | Depende da contribuição |
| Licença-maternidade | Sim | Depende da contribuição |
| Contribuição para aposentadoria | Sobre o salário | Sobre o pró-labore |
Ficar doente sai caro
PJ que não trabalha não fatura. Uma cirurgia com 40 dias de recuperação significa mais de um mês sem receita, enquanto o CLT recebe os primeiros 15 dias da empresa e depois o auxílio do INSS. A recomendação corrente entre contadores é manter uma reserva de pelo menos seis meses de custo de vida antes de aceitar uma proposta PJ — e essa reserva precisa sair do próprio ganho extra.
Quando o PJ é legal e quando é pejotização
Contratar PJ é lícito para prestação de serviço autônoma. Vira fraude quando existem, ao mesmo tempo, os elementos do vínculo empregatício: pessoalidade, habitualidade, onerosidade e, principalmente, subordinação.
Bater ponto, cumprir horário fixo determinado pela empresa, receber ordens diretas de um chefe, participar de reuniões obrigatórias e não poder mandar outra pessoa no seu lugar são indícios fortes de vínculo. Nesse caso a Justiça do Trabalho pode reconhecer o contrato como CLT e condenar a empresa a pagar todas as verbas do período — férias, 13º, FGTS e multa.
O tema está em discussão nos tribunais superiores e a jurisprudência vem mudando. Se a sua rotina como PJ for idêntica à de um empregado, vale conversar com um advogado trabalhista antes de assinar.